Escurinho goleador do Inter

Escurinho aos 60 anos

Escurinho ganhava fama com seus gols de cabeça de último minuto em 1972. Mas o clube não admitia seus acordes com o violão na concentração, e ele o doou para a Spaan. Um empresário o arrematou em leilão e, 37 anos depois, o recolocou em remate. O dinheiro arrecado agora acabou revertido a Escurinho, que faz hemodiálise e se adapta à prótese devido à amputação da pernaO violão Giannini com o tampão da frente laqueado em vermelho dégradé e envernizado atrás, nas laterais e no braço de seis cordas, Escurinho o comprou quando juvenil. Com ele enfrentava modorrentas horas sem ter o que fazer na concentração do Inter dos anos 70.
Entre um jogo e outro, Escurinho tirava Jorge Ben, Roberto Carlos e até sambas próprios metido em calças boca de sino com o cós alto, cobrindo os oito centímetros do salto do sapato branco e camisas de cor marcante com a gola batendo nos ombros.
Só os juvenis aceitavam ouvi-lo nas rodinhas. Os figurões titulares tinham mais o que fazer, não se submetiam aos seus acordes.
Em casa, ele dedilhava instrumento de melhor afinação. Mas o laqueado ele o mantinha sobressalente no carro e o usava apenas no Beira-Rio, no quarto, no refeitório, na sala de jogos, no ônibus da delegação e até nos banheiros, em busca de melhor acústica.
Mal diferenciava o ré de dó.
Em campo o violonista galgava o apelido de “pé-quente” a cada jogo que resolvia nos últimos minutos com uma cabeçada infalível. Era o reserva das horas difíceis. Os acordes na concentração, porém, desafinavam nos ouvidos dos dirigentes: violão leva à boemia, e boemia não harmonizava com o profissionalismo crescente dos clubes naquele ano de 1972.
Mensagens de advertência baixaram ao vestiário: ou futebol, ou o samba.
Havia um agravante. Escurinho concedia declarações inquietantes, reivindicava lugar no time e era destaque do desfile da escola Imperadores do Samba com o cabelo black power que ele armava a 10 centímetros de altura em homenagem ao peso-pesado Cassius Clay, o Muhammad Ali. Tudo isso assustava.
Com tanta pressão, Escurinho deixou o violão no carro. Aguardou o final do Campeonato Gaúcho e bolou a reconstrução de sua imagem. Tinha 22 anos.
Combinou com o jornalista e preparador físico Antônio Carlos Mendes Ribeiro a doação do violão à Sociedade Porto-Alegrense de Auxílio aos Necessitados (Spaan). À época, Ribeiro apresentava um quadro dentro do Jornal do Almoço da então TV Gaúcha e nele promoveu um leilão com o laqueado. Escurinho apareceu no ar com o abrigo do clube e entregou o violão ao apresentador, que o embaraçou:
– Isto é uma renúncia ao violão, Escurinho?
– É, sim. Não tem mais violão na concentração.
A resposta evasiva, com o “na concentração”, passou batida, e o leilão, por telefone, teve início com dois interessados.
O empresário João Signorelli assistia ao programa em casa, na zona norte de Porto Alegre, e se comoveu com a doação do violão que, afinal, ele próprio não via com simpatia.
– Eu queria os gols do Escurinho, o violão só atrapalhava – confirma hoje.
Signorelli tomou o telefone e abriu o leilão. Cem cruzeiros da época. Um concorrente ligou e ofereceu 150 cruzeiros, e o lance cresceu a 300, 500 cruzeiros, até que o empresário radicalizou. Cantou a exorbitância de 1 mil cruzeiros – equivalente hoje a R$ 2,8 mil, quase uma jamanta de violões. Queria alijar o concorrente e vibrava ao lado da mulher, Dalila, quando Ribeiro confirmou um lance de 2 mil cruzeiros.
– O que é isso? – gritou Signorelli para Ribeiro e suas costeletas, sorridente na tela da TV.
Pensou em desistir, mas, diante da mulher e dos amigos, que a essa altura tomavam a sala de casa, arriscou um lance de 2,5 mil cruzeiros.
Intimamente desejou que o concorrente cobrisse aquele desatino. Passaram-se cinco, 10, 15 segundos, a outra linha emudeceu e Ribeiro bateu o martelo. Signorelli pagou algo como R$ 7 mil de hoje. Daria para comprar um Fusca.
Ao menos o laqueado exibia autógrafos dos jogadores, e assim, como um troféu, Signorelli o alojou na lareira estilizada da casa na Avenida Benno Mentz, na zona norte de Porto Alegre.
Permaneceu intacto. Quando muito o auditor fiscal e violonista José Valmir da Costa, amigo do empresário, tentava afiná-lo.
Trinta e sete anos depois, Escurinho e o antigo violão se reencontraram em dezembro. Foi em uma reunião do grupo Ação Independente Colorada. Terno cinza, o ídolo da festa apareceu amparando com muletas seu 1m84cm de altura. A calça escondia a prótese na perna direita, amputada logo abaixo do joelho.
Nego Q-Suco era o apelido em casa
Escurinho e Claudiomiro eram os homenageados da noite e, sabendo disso, José Valmir sugeriu a Signorelli que enfim levasse o instrumento à festa. Bolaram um novo leilão. Em nome do grupo, o conselheiro Marcelo Costa arrematou o laqueado por R$ 5 mil. Ali mesmo destinou o dinheiro ao antigo dono do violão.
A doação feita à Spaan em 1972 agora revertia ao doador.
Com o mesmo sorriso, com uma pinta centralizada acima do lábio superior e com o cabelo ralo e de fios brancos, Escurinho tomou o violão de volta por uns instantes e admitiu com graça:
– Eu não tocava nada nessa época.
Tocava pouco, garante Paulo Cézar Carpegiani, seu colega de concentração no Beira-Rio. Carpegiani era implacável. Atirava baldes d’água quando Escurinho se refugiava no banheiro da concentração em busca de paz e acústica.
No dia seguinte ao da festa do violão, Escurinho retomou a pesada rotina. Submeteu-se a uma sessão de quatro horas de hemodiálise numa clínica perto de casa em Guaíba.
Três vezes por semana ele enfrenta o tratamento devido à insuficiência renal. Qualquer sessão perdida provoca-lhe seriíssimas complicações. No dia seguinte, fez fisioterapia de adaptação à prótese numa clínica de Porto Alegre – que lhe doou a perna mecânica e o tratamento, duas vezes por semana. Apenas o sábado e o domingo são livres. Durante a semana, luta pela saúde.
O diabetes não tratado a tempo é a razão de seus problemas. Desde adolescente entornava litros de refrigerantes, o que lhe valeu em casa o apelido de “Nego Q-Suco”. O violão lhe pregava fama de boêmio, embora mal suportasse o segundo copo de cerveja. Preferia refrigerante.
A descoberta do diabetes foi em 1995. Um amigo espantou-se com a rapidez com que sugou dois litros de refrigerante. Os exames acusaram alto grau da doença. Ele ensaiou um tratamento mínimo, até estranhar a insistência de bolhas no dedão do pé direito que, afinal, se viu obrigado a amputar em 2001. É dessa época o início da hemodiálise.
Em 2008 a visão turvou, e Escurinho entrou 2009 praticamente cego.
Em visita ao oculista, no centro de Porto Alegre, torcedores o chamavam aos gritos na rua. Não recebiam resposta. Escurinho apenas sorria e abanava sem direção. Queriam abraçá-lo, e ele se desculpava pela falta de visão, com a voz suave e a resignação disfarçada:
– Tudo bem, tudo bem. Vai dar tudo certo.
Por três vezes Escurinho deu entrada na emergência do Hospital de Clínicas no verão de 2009. Entre outros problemas, a região em torno do dedo amputado em 2001 voltou a incomodar, e ele revirou-se em macas nos corredores do hospital à espera de quarto.
Durante a festa do centenário do Inter, em abril, velhos companheiros o procuraram na mesa sem que ele conseguisse ver com quem falava. Reconheceu Falcão pela voz, companheiro de quarto na concentração do Beira-Rio.
Ele e o filho Cássios, que o acompanhava naquela noite, guardavam um horrendo segredo: Escurinho estava ali sem a metade do pé direito. Calçava sapato, e com o terno gelo, elegante, ele escondia sua aflição. Sofrera amputação duas semanas antes. Pior: a intervenção não estancara a febre.
Por volta das 22h, sentiu-se mal e se deixou cair sobre a mesa. Removeram-no às pressas ao Pronto Socorro, e ele nem reviu velhos amigos. Nem falou com o seu técnico Minelli, como queria. Passou o restante da madrugada no HPS. Foi liberado às 8h.
Vida social lhe é quase proibitiva.
Casado há 17 anos com a técnica em enfermagem Ângela Maria Petrucci – do segundo casamento, com quem mora em Guaíba em um sobrado –, a aposentadoria de R$ 2 mil lhe seria suficiente não fossem as repentinas crises de saúde. Os filhos Síntia, Cássios e D’Marcellos, da primeira família; Francielle e Leonardo, de relacionamentos, e o enteado Diogo têm vida própria, e Escurinho, com dignidade, recusa caridade e jogo beneficente.
– Quero trabalhar, tenho a imagem a preservar – diz.
De fato, em parceria com o Inter, lançou no ano passado a camiseta de malha perfurada que tanto seduzia adversários nos anos 70. A série retrô tem disponível a 14, de Escurinho, e a 9, de Claudiomiro. As camisetas só não exalam a alfazema com a qual o massagista Antenor Moura, filho de Ogum, borrifava o distintivo.
A amputação, ele decidiu numa noite
A visão, Escurinho a recuperou em parte, após cirurgia no Banco de Olhos. O pé doente, porém, apesar do corte de metade da planta, continuou com inflamação. Os médicos apresentaram-lhe a única solução possível: teria de amputar numa região da perna que lhe garantisse a circulação.
Escurinho lembrou do atacante Sérgio Galocha. Foi ele próprio quem o internou em meados dos anos 90, já em grave estado de saúde provocado pelo mesmo diabetes. Sergio acabou com a perna amputada e, agora, no hospital, Escurinho recusava o mesmo destino.
– Isso eu não vou fazer, doutor – disse resoluto em maio de 2009.
No outro dia, pela manhã, os médicos previam resistência maior quando Escurinho os surpreendeu:
– Podem cortar o que for necessário.
Ele ruminou a decisão sozinho na madrugada no leito do Hospital de Clínicas. Sentiu-se mais resignado do que pesaroso.
Quase oito meses depois, Escurinho se adapta bem à prótese, apesar da debilidade provocada pela hemodiálise. A postura ereta e o tronco fortalecido que lhe permitiam os golpes de cabeça agora o ajudam na fisioterapia.
Para a cabeça, bate um violão bem mais afinado do que o laqueado, com o qual mantém um sonho: gravar um CD com o amigo Ancheta, seu mais severo e frequente adversário do Grêmio dos anos 70. Cantor de tangos e boleros, Ancheta já se apresentou na noite com Escurinho. Fizeram até aula de canto.
Ainda vão lançar um sambolero.
Z H